1° Festival Povos da Floresta do Juruá reúne territórios, culturas e lideranças em um grande encontro de articulação indígena
Entre os dias 5 e 7 de dezembro de 2025, a Terra Indígena Puyanawa, localizada no município de Mâncio Lima (AC), tornou-se o centro de um dos mais importantes encontros indígenas já realizados no Vale do Juruá: o 1º Festival Povos da Floresta do Juruá. O evento reuniu povos indígenas, lideranças comunitárias, organizações parceiras e instituições públicas em um espaço de celebração cultural, fortalecimento identitário e articulação política, voltado à defesa dos territórios e dos direitos dos povos indígenas.
O festival foi organizando e produzido pela Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá (OPIRJ), com apoio do Fundo Amazônia, por meio do Projeto Gestão Territorial OPIRJ. A iniciativa teve como principal objetivo promover o encontro entre os territórios indígenas e as lideranças do movimento indígena do Juruá, articulando momentos de celebração cultural com debates estratégicos sobre a organização territorial, política e institucional dos povos da floresta.
Participação dos territórios e fortalecimento das alianças
O 1º Festival Povos da Floresta do Juruá reuniu representantes de 15 territórios indígenas, consolidando-se como um marco histórico de intercâmbio cultural na região. Estiveram presentes os povos Nukini, Nawa, Puyanawa, Noke Koî, Shawãdawa, Jaminawa do Igarapé Preto, Yawanawa, Apolima Arara, Jaminawa Arara do Bagé, Kuntanawa, Hunî Kuî do Breu, Hunî Kuî do Jordão, Ashaninka da Apiwtxa e Ashaninka do Peru.
Além da expressiva participação indígena, o evento contou com a presença de lideranças das Reservas Extrativistas (Resex) do Juruá, Resex Alto Tarauacá e o Riozinho da Liberdade fortalecendo a histórica aliança entre povos indígenas e comunidades tradicionais na luta pela proteção dos territórios, da floresta e dos modos de vida sustentáveis. Também participaram representantes do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI), da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI), da Comissão Pró-Índio do Acre (CPI Acre), da FEPACH e do Comitê Chico Mendes, ampliando o diálogo entre organizações indígenas, instituições públicas e entidades da sociedade civil.
Espaços de diálogo, formação e articulação política
Ao longo dos três dias de programação, o festival promoveu mesas de debate, rodas de conversa e espaços de escuta coletiva, abordando temas centrais para o movimento indígena, como a organização territorial, os direitos indígenas, as políticas públicas, a proteção dos territórios, a valorização dos conhecimentos tradicionais e os desafios contemporâneos enfrentados pelos povos da floresta. Esses momentos reforçaram a importância da construção coletiva de estratégias e do fortalecimento das organizações indígenas como instrumentos fundamentais para a defesa dos territórios e da autonomia dos povos.
Cultura, ancestralidade e protagonismo indígena
A programação cultural foi um dos pontos altos do festival, com apresentações de danças e cantorias tradicionais, exposições e trocas de artesanato, práticas de pintura corporal, sessões de cinema indígena, competição de arco e flecha e um importante momento de contação de histórias. Esse espaço de oralidade reuniu lideranças e anciões para compartilhar narrativas sobre o movimento indígena do Juruá, a história e o significado da caiçuma, os processos de resgate cultural vivenciados por alguns povos e as práticas culturais específicas desenvolvidas em cada território, fortalecendo a transmissão dos conhecimentos ancestrais entre gerações.
Essas atividades contribuíram para o fortalecimento do orgulho identitário, do sentimento de pertencimento e da valorização das línguas, saberes, memórias e expressões culturais dos povos participantes, reafirmando o protagonismo indígena na preservação e na continuidade de suas culturas.
Organização, logística e participação comunitária
Para garantir a ampla participação dos territórios, a OPIRJ realizou reuniões prévias com as lideranças indígenas, com o objetivo de alinhar informações e organizar a logística de deslocamento. Cada território indicou, em média, 15 participantes, entre lideranças e representantes culturais, com incentivo à participação das mulheres. O festival também contou com a participação de três jovens indígenas em processo de conclusão do curso de audiovisual, fortalecendo a formação de comunicadores indígenas e contribuindo para o registro do evento a partir do olhar dos próprios povos. Ao todo, foram 241 indígenas indicados oficialmente, além de uma grande participação de moradores da comunidade Puyanawa e de outros povos vizinhos que visitaram o festival ao longo das atividades.
Para a realização do evento, foram investidos recursos em transporte, hospedagem, alimentação, material gráfico, aluguel de tendas, combustível, entre outros itens. Para os participantes oriundos dos municípios de Marechal Thaumaturgo, Jordão e Peru, foi contratado serviço de embarcação com estrutura para 98 pessoas, tanto para ida quanto para retorno. Para os demais territórios, foram repassadas requisições de combustível, contratação de lanchas, táxis até Cruzeiro do Sul e, posteriormente, ônibus e micro-ônibus para o deslocamento até a Terra Indígena Puyanawa.
O Centro de Cultura Dimãnã Ewe Yûbabu, do povo Puyanawa, foi alugado para a realização do evento, assim como os serviços de alimentação. Cerca de 200 pessoas ficaram hospedadas no centro cultural e outras 50 pessoas no Centro Ewe Pîdu. Para melhorar a estrutura, foram construídos novos banheiros, mesas para o refeitório, mesas para exposição de artesanato e instaladas tendas para ampliar a capacidade de hospedagem.
Durante os três dias de festival, foram fornecidas mais de 300 refeições por turno (café, almoço e jantar), distribuídas em quatro refeitórios. A comunidade Puyanawa, como anfitriã do espaço, foi contratada para prestar os serviços de alimentação. Como parte do cardápio tradicional, foram preparados aproximadamente 1.500 litros de caiçuma, elemento essencial para as apresentações culturais do evento.
Exposições institucionais e material gráfico
O festival contou com uma tenda de exposição institucional, destinada à apresentação das ações do Projeto Gestão Territorial OPIRJ, além de espaços para a exposição de artesanato dos territórios indígenas e das reservas extrativistas. Foram alugadas três tendas 10×10, equipadas com banners contendo a biografia de cada território, mapas das Terras Indígenas de base da OPIRJ, mapas das obras da organização e um painel LED, utilizado durante os três dias para exibição de fotos, vídeos e filmes.
Também foi contratado serviço de designer gráfico para a criação da identidade visual do festival e produção de material gráfico, incluindo folders, camisas, bolsas, banners e garrafas.
Um marco histórico para o Vale do Juruá
O 1º Festival Povos da Floresta do Juruá consolidou-se como um marco histórico para a região, fortalecendo o movimento indígena, celebrando a diversidade cultural dos povos e impulsionando a economia dos territórios, por meio da venda de artesanato e da contratação de serviços locais. O evento também movimentou a economia regional com a compra de insumos, combustíveis, aluguel de hotéis, transporte e estruturas.
Mais do que um evento cultural, o festival proporcionou à população da região um espaço de troca, aprendizado e aproximação com a riqueza e a diversidade das culturas originárias do Juruá, com cada povo apresentando suas músicas, línguas, danças e brincadeiras tradicionais.
Com a realização do festival, a Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá (OPIRJ) reafirma seu papel como articuladora do movimento indígena regional, promovendo um grande espaço de intercâmbio entre os povos e fortalecendo, de forma concreta, a união, a identidade e a luta coletiva dos territórios indígenas do Juruá.












