OPIRJ realiza entrega do Núcleo Indígena de Gestão Integrada do povo Kuntanawa
A Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá realizou, no dia 27 de abril, a entrega oficial do Núcleo Indígena de Gestão Integrada (NIGI) do povo Kuntanawa, na aldeia Sete Estrelas. A agenda aconteceu durante a realização da Oficina de PGTA (Plano de Gestão Territorial e Ambiental), promovida pela organização por meio do Projeto Juruá Sustentável, reunindo lideranças, jovens e comunidade do território.
A equipe da OPIRJ saiu de Cruzeiro do Sul no dia 25 de abril e chegou ao território Kuntanawa no dia 26. Durante a manhã do dia 27, os participantes acompanharam as atividades da oficina de PGTA e, no período da tarde, aconteceu a cerimônia oficial de entrega do espaço, com assinatura do documento de posse e transferência da estrutura para o povo Kuntanawa.
O Núcleo Indígena de Gestão Integrada é considerado um espaço estratégico para fortalecer a organização territorial, a articulação política e os processos de gestão comunitária. A entrega acontece em um momento importante da luta do povo Kuntanawa pela demarcação de seu território, processo que já soma cerca de 25 anos de mobilização e resistência.
Estrutura moderna construída dentro do território
O NIGI do povo Kuntanawa possui 180m² e foi construído pela empresa CONSTRUTORA FIBONACCI LTDA. O contrato da obra iniciou em 1º de abril de 2025 e finalizou em 31 de outubro de 2025. O espaço foi planejado para atender diferentes demandas da comunidade, funcionando como sede administrativa, espaço de reuniões, formação, acolhimento e articulação territorial.
A estrutura conta com sistema de energia solar independente, computadores, internet, mesas de escritório, mobiliários, sala de reuniões, banheiros, TV, datashow e cozinha equipada para atender as atividades do território.
A construção do núcleo exigiu uma grande mobilização logística da equipe da OPIRJ. Desde o início do projeto, foi necessário organizar o transporte de materiais de construção, equipamentos eletrônicos, mobiliários e sistemas de energia até o território, enfrentando dificuldades de acesso e longas distâncias percorridas por estradas e rios da região do Juruá.
Além do transporte dos materiais de construção, a OPIRJ também articulou a contratação de equipes técnicas especializadas para realizar a instalação do sistema solar, uma das estruturas mais importantes do núcleo. O investimento em energia solar representa um dos maiores custos da implementação dos NIGIs nos territórios indígenas, garantindo autonomia energética e funcionamento permanente do espaço, inclusive em locais onde não existe rede convencional de energia elétrica.
Outro desafio enfrentado durante a construção foi a escolha dos materiais adequados para suportar as condições climáticas da região amazônica. O planejamento da obra buscou garantir durabilidade, resistência e funcionalidade da estrutura para atender as necessidades atuais e futuras da comunidade.
Espaço construído para fortalecer o coletivo
Durante a cerimônia de entrega, a liderança feminina Rosi Kuntanawa destacou a importância da parceria entre a comunidade e a OPIRJ para garantir a realização do núcleo.

“Hoje temos aqui a equipe da OPIRJ presente nesse momento junto com o coordenador Francisco Piyãko, dentro de uma casa que foi construída com essa parceria do território com a OPIRJ. Hoje estamos vendo frutos de tudo isso.”
Rosi também ressaltou que o espaço representa mais uma ferramenta de fortalecimento coletivo para o povo Kuntanawa, especialmente em um momento de mobilização territorial e fortalecimento da organização comunitária.
A construção dos NIGIs faz parte de uma estratégia mais ampla da OPIRJ para fortalecer a autonomia dos povos indígenas da região do Juruá. Além do povo Kuntanawa, outros territórios também vêm sendo contemplados com estruturas semelhantes, pensadas para servir como bases permanentes de gestão territorial, formação política e monitoramento comunitário.
Juventude e continuidade da luta
Pedro Kuntanawa destacou a importância da participação das novas gerações nos processos de organização e defesa territorial.
A fala reforçou a necessidade de continuidade da luta histórica do povo Kuntanawa, envolvendo jovens, lideranças e famílias na construção coletiva do território.
O núcleo também surge como um espaço voltado para formação da juventude, realização de oficinas, cursos e fortalecimento de conhecimentos tradicionais e técnicos dentro da própria comunidade.
Planejamento territorial e fortalecimento da gestão indígena
Rivelino Kuntanawa, liderança e membro do conselho fiscal da OPIRJ, ressaltou a importância do acompanhamento realizado pela organização junto aos territórios indígenas e destacou o papel do planejamento estratégico dentro do Projeto Gestão Territorial.

“Hoje estamos construindo nosso plano de vida através da OPIRJ. Essa parceria tem sido positiva e produtiva.”
Rivelino explicou que o trabalho da organização vem sendo construído junto às comunidades, identificando prioridades, dificuldades e potencialidades de cada território. Segundo ele, os NIGIs representam uma estrutura importante para garantir continuidade às ações de gestão territorial e fortalecimento político das comunidades.
O espaço já está servindo como base de apoio para oficinas, reuniões e atividades comunitárias, incluindo a própria Oficina de PGTA realizada pela OPIRJ durante a agenda de entrega.
Francisco Piyãko destaca resistência histórica e fortalecimento territorial
O coordenador da OPIRJ, Francisco Piyãko, destacou a importância da memória histórica e da união entre os povos indígenas da região do Juruá.
Francisco relembrou o período dos seringais e a violência sofrida pelos povos indígenas durante os processos de invasão e exploração da Amazônia.
Durante sua fala, ele também ressaltou que o fortalecimento territorial passa pela construção de estruturas permanentes de organização dentro das comunidades.

“Tudo isso que existe agora veio de muita luta, resistência e organização das lideranças que vieram antes.”
Segundo Francisco, o trabalho da OPIRJ busca garantir que os territórios tenham condições de desenvolver suas próprias estratégias de gestão, educação, monitoramento e fortalecimento cultural.
“A base de um povo é o território. Vocês podem conquistar muitas coisas, mas se o território não estiver garantido, vocês ainda não estarão seguros.”
Ele também destacou que a organização vem atuando em diferentes territórios ao mesmo tempo, acompanhando processos de demarcação, oficinas, reuniões comunitárias e ações de fortalecimento territorial em toda a região do Juruá.
Tecnologia, organização e futuro das próximas gerações
Osmildo Kuntanawa ressaltou a importância dos equipamentos e das novas tecnologias disponibilizadas no núcleo para fortalecer a luta do povo.

“Essa casa está sendo feita com equipamentos de nova tecnologia. Tudo isso só fortalece a nossa luta e a nossa história.”
Segundo ele, os computadores, sistema solar, internet e demais equipamentos que chegam aos territórios representam ferramentas importantes para o monitoramento territorial, comunicação e organização comunitária.
Osmildo também destacou que a construção do núcleo simboliza um investimento no futuro das próximas gerações e no fortalecimento permanente do território Kuntanawa.
Memória ancestral e fortalecimento da identidade
Haru Kuntanawa, presidente da Associação Sociocultural Ambiental Kuntanawa (ASCAK), destacou a importância da união e da valorização da memória ancestral durante o processo de construção coletiva do povo Kuntanawa.
Haru também ressaltou a importância da participação da juventude, da preservação da cultura e da continuidade da organização comunitária.
“União significa estar junto quando o povo precisa lutar, resistir e conquistar algo coletivo.”
Fortalecimento dos territórios indígenas
A entrega do Núcleo Indígena de Gestão Integrada representa mais uma conquista coletiva do povo Kuntanawa e um importante avanço na estruturação da gestão territorial indígena na região do Juruá.
O espaço servirá como sede para reuniões, oficinas, acolhimento comunitário, articulação política e fortalecimento das demandas jurídicas e territoriais do povo Kuntanawa.
A construção do NIGI integra as ações do Projeto Gestão Territorial OPIRJ, realizado com apoio do Fundo Amazônia, fortalecendo a autonomia, organização e proteção dos territórios indígenas da região.






