NOTA DE REPÚDIO – OPIRJ repudia ataques do senador Márcio Bittar contra lideranças e organizações indígenas do Vale do Juruá
A Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá (OPIRJ) manifesta seu repúdio às declarações do senador Márcio Bittar (PL-AC), que, durante entrevista à imprensa de Cruzeiro do Sul, atacou o coordenador-geral da organização, Francisco Piyãko, levantou suspeitas sobre projetos indígenas e tentou apresentar a defesa de nossos direitos como obstáculo ao desenvolvimento regional.
É inaceitável que um representante do Acre no Senado Federal utilize sua posição política para desqualificar lideranças indígenas e alimentar divisões entre comunidades que compartilham desafios históricos de acesso à saúde, educação, transporte e infraestrutura.
A OPIRJ é constituída e conduzida pelos próprios povos indígenas do Rio Juruá. Suas decisões são coletivas, tomadas por meio de instâncias legítimas de representação. Não somos instrumento de interesses individuais, familiares ou partidários. Reduzir nossa organização à figura de uma única liderança é desrespeitar a autonomia dos povos que representamos.
Também repudiamos as insinuações sobre recursos do Fundo Amazônia. Administrado pelo BNDES, o fundo possui critérios de aprovação, acompanhamento e prestação de contas. Seus recursos financiam projetos de interesse coletivo e beneficiam diferentes instituições, inclusive o Governo do Acre. Não se trata de favor político, privilégio pessoal ou concessão de qualquer autoridade. Lançar suspeitas sem apresentar provas é uma atitude irresponsável.
Enfrentamos dificuldades para proteger nossos territórios e garantir melhores condições de vida às comunidades, mas isso não significa que sejamos povos miseráveis ou atrasados. Temos nossas casas, nossos roçados, nossos alimentos, nossas culturas e nossas próprias formas de viver, produzir e cuidar da natureza. Esses modos de vida precisam ser conhecidos e respeitados, não tratados como obstáculos ao progresso.
Estamos abertos ao diálogo sobre políticas públicas, estradas, pontes e demais investimentos que tragam benefícios reais à população. Entretanto, qualquer proposta precisa ser debatida com as comunidades, respeitar nossos direitos e considerar seus impactos sobre os territórios, a floresta, os rios e as formas tradicionais de vida. É preciso avaliar se esses empreendimentos contribuirão para o futuro da região ou provocarão sua destruição.
Defender nossos direitos não significa impedir o desenvolvimento. Os povos indígenas também não podem ser responsabilizados por décadas de abandono e ausência de investimentos públicos no Vale do Juruá. O futuro da região exige soluções construídas com participação, responsabilidade e respeito à Constituição Federal, inclusive ao direito à consulta livre, prévia e informada.
A OPIRJ não aceitará intimidações, acusações sem provas ou tentativas de deslegitimar suas lideranças. Reafirmamos nossa autonomia e nosso compromisso com a defesa dos territórios, das culturas e dos direitos indígenas.
Os povos indígenas não são obstáculos ao desenvolvimento. Temos nossa própria visão de futuro e o direito de participar das decisões sobre o destino do Vale do Juruá. Desenvolvimento não pode significar a destruição daquilo que garante a vida de nossos povos e das futuras gerações.
Cruzeiro do Sul, Acre, 17 de outubro de 2026.




