Entre os dias 26 e 31 de agosto de 2026, a Aldeia Yawarani, na Terra Indígena Rio Gregório, em Tarauacá, no Acre, recebe uma das mais importantes celebrações culturais do povo Yawanawa: o Mariri Yawanawa 2026. A festividade reúne representantes das 17 aldeias do povo Yawanawa em dias de cantos, rituais, apresentações culturais, brincadeiras tradicionais, espiritualidade, partilha e reencontro entre famílias e comunidades.
Realizado pela Associação Sociocultural Yawanawa (ASCY), com o apoio das lideranças do território, o Mariri deste ano acontece em um período especial, marcado pela lua cheia e pelo eclipse lunar, compondo um cenário de forte conexão com a natureza e com a espiritualidade Yawanawa.
Mais do que uma festa, o Mariri representa um espaço de fortalecimento da identidade e da cultura do povo Yawanawa. Durante a celebração, são vivenciados cantos, rituais, língua, músicas, apresentações artísticas e culturais, brincadeiras tradicionais e momentos de espiritualidade por meio das medicinas tradicionais.
A programação também recebe visitantes de diferentes regiões do Brasil e do exterior, que chegam ao território para conhecer e vivenciar parte da essência da cultura Yawanawa, acompanhando as atividades e estabelecendo uma conexão com os conhecimentos, a espiritualidade e as tradições do povo.
OPIRJ fortalece parceria com o povo Yawanawa
A convite das lideranças e da ASCY, organizadora do Mariri Yawanawa, a Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá (OPIRJ) esteve presente na celebração para fortalecer a parceria com o território e suas lideranças.
A organização foi representada pelo coordenador Francisco Piyãko e pela secretária da OPIRJ, Eliane Yawanawa, que realizaram uma visita à Aldeia Yawarani durante a programação do Mariri.
A presença da OPIRJ reforça a importância da articulação entre os povos indígenas e das organizações representativas na construção de ações voltadas ao fortalecimento dos territórios, da cultura e da autonomia dos povos indígenas.
Uma celebração em homenagem à ancestralidade
A realização do Mariri na Aldeia Yawarani também carrega um significado especial para a comunidade anfitriã. Sob o comando do cacique Shaneihu e com a atuação da anfitriã Fátima Sheki, a comunidade se mobilizou durante meses para preparar o território para receber uma celebração desse tamanho.
Fátima Sheki, uma das lideranças femininas que defendeu a realização do Mariri na aldeia, conta que a escolha do local representa também uma homenagem ao seu pai, Yawarani. Segundo ela, houve um processo de amadurecimento da comunidade e das lideranças, que, com o apoio de outros líderes, como Taskha, conseguiram mobilizar a comunidade para a realização do evento.
Os preparativos envolveram diversas ações, desde a limpeza dos espaços até a construção de uma ponte que hoje conecta a comunidade e carrega uma forte memória familiar.
A estrutura construída para receber o festival remete a um antigo sonho de seu pai: realizar uma grande festa na aldeia, reunindo a família para brincar, festejar, se encontrar e celebrar.
Por isso, para Fátima Sheki, trazer o Mariri Yawanawa para a Aldeia Yawarani é também uma forma de manter viva a memória e realizar um sonho deixado por seu pai.
17 aldeias reunidas em um só território
A edição de 2026 reúne representantes das 17 aldeias Yawanawa, fortalecendo a dimensão coletiva da celebração. Entre as lideranças e representantes presentes estão Matsini, Júlia Yawanawa, da Aldeia Mutum, Nixiwaka, da Aldeia Sagrada, e Taskha Yawanawa, representando a Aldeia Yawatxivã e a ASCY.
Na aldeia anfitriã, destacam-se as lideranças Kate Yuve, Fátima Sheki, Shaneihu e Sheki, que atuam na organização e preparação da comunidade para receber o festival, juntamente com o apoio de Taskha Yawanawa, representante da ASCY.
A presença das diferentes aldeias transforma o Mariri em um grande momento de encontro entre gerações e comunidades, fortalecendo os vínculos entre as famílias Yawanawa e criando espaços para que os conhecimentos tradicionais continuem sendo transmitidos.
“Uma oportunidade de se reconciliar com nossos ancestrais”
Para o cacique Shaneihu, realizar o Mariri Yawanawa representa uma oportunidade de conexão profunda com a ancestralidade e com a espiritualidade.

“Realizar o Mariri Yawanawa é uma oportunidade que todos Yawanawa têm de se reconciliar com nossos ancestrais, com Deus. Eu sinto que coisas boas estão nascendo aqui.”
O cacique também destaca que a realização do festival na Aldeia Yawarani é resultado da inspiração e do esforço de diferentes gerações de lideranças Yawanawa.
Segundo ele, trazer o Mariri para uma aldeia pequena representava um grande desafio, principalmente por toda a estrutura necessária para receber pessoas vindas de diferentes comunidades. No entanto, com a mobilização coletiva, o desafio foi superado.
Shaneihu afirma ainda sentir-se inspirado pelos líderes Yawanawa e agradecido aos ancestrais por poder contribuir para a continuidade da cultura.
Para ele, a realização do festival também representa a continuidade de um sonho construído por sua família e por outras lideranças que desejavam levar o Mariri para a Aldeia Yawarani.
Com 26 anos de história, o Mariri Yawanawa se consolidou como um dos grandes momentos de celebração da cultura e da identidade do povo Yawanawa. Ao longo desse período, o evento passou por diferentes momentos e se tornou um espaço de encontro e fortalecimento da nação Yawanawa.
Cultura que atravessa gerações
O Mariri reúne crianças, adolescentes, jovens, adultos e anciãos em um mesmo espaço. A celebração permite que diferentes gerações compartilhem conhecimentos, histórias e experiências.
Para Taskha Yawanawa, esse encontro é fundamental para que a cultura continue viva.

“É um momento para cantar, brincar, se alegrar, ouvir histórias, conversar com nossos tios e avós. É também poder ver a juventude aprendendo e, assim, ensinando seus filhos.”
Ele destaca que o Mariri representa um momento de cura, partilha e conexão com a essência do povo Yawanawa.
“É um momento de curar, receber a cura, beber medicina e viver a essência do povo Yawanawa.”
A participação das crianças e dos jovens demonstra que a transmissão cultural continua acontecendo dentro das próprias comunidades, com os mais novos aprendendo com os mais velhos e assumindo, pouco a pouco, a responsabilidade de manter vivos os conhecimentos de seus ancestrais.
Uma aldeia mobilizada para receber o Mariri
A realização do festival na Aldeia Yawarani exigiu uma grande mobilização comunitária. Como o território está localizado na Terra Indígena Rio Gregório, o acesso à aldeia é realizado por meio fluvial.
Para chegar à comunidade, os participantes fazem o deslocamento de barco. A viagem pode levar aproximadamente quatro horas e meia na subida do rio e três horas na descida, dependendo das condições do percurso.
Participantes de aldeias mais distantes permanecem hospedados na Aldeia Yawarani durante o festival, enquanto aqueles que vivem em comunidades próximas realizam o deslocamento diariamente.
Toda essa logística faz parte do esforço coletivo para garantir que as diferentes aldeias possam estar reunidas durante os dias de celebração.
Um legado que continua vivo
Ao reunir 17 aldeias, diferentes gerações e visitantes de várias partes do Brasil e do mundo, o Mariri Yawanawa 2026 reafirma sua importância como espaço de fortalecimento cultural, espiritual e comunitário.
Na Aldeia Yawarani, a celebração ganha ainda um significado especial: homenageia a memória dos ancestrais, celebra a trajetória das lideranças e materializa o sonho de uma comunidade que se preparou para receber um dos maiores encontros do povo Yawanawa.
Entre cantos, rituais, brincadeiras, histórias, medicinas e encontros, o Mariri reafirma que a cultura Yawanawa permanece viva sendo praticada, ensinada e transmitida de geração em geração.
Mais do que preservar um legado, a celebração representa a continuidade de uma história que segue sendo construída coletivamente pelos povos Yawanawa.
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