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Conferência Estadual de comunicação dos povos da floresta promove diálogo entre juventudes, coletivos, organizações e lideranças sobre comunicação, políticas públicas, conectividade e defesa dos territórios

Entre os dias 1º e 6 de setembro, está foi realizada, no Centro de Formação dos Povos da Floresta, da Comissão Pró-Indígenas do Acre (CPI-Acre), a COMFLORESTA – Conferência Estadual de Comunicação dos Povos da Floresta. O encontro reúne jovens comunicadores indígenas, coletivos de comunicação, lideranças e representantes de comunidades extrativistas das Reservas Extrativistas do Acre.

A conferência reúne comunicadores de 14 territórios e 14 povos, criando um espaço de encontro, formação, troca de experiências e construção coletiva sobre os caminhos da comunicação nos territórios indígenas e extrativistas.
Foto: Tetepawa Comunica

Realizada pela Rede de Comunicadores Indígenas do Acre e pelo Coletivo Varadouro, em parceria com o Comitê Chico Mendes, e com apoio da Comissão Pró-Indígenas do Acre (CPI-Acre), a COMFLORESTA busca fortalecer a comunicação produzida pelos próprios povos da floresta, valorizando suas narrativas, culturas, conhecimentos tradicionais e processos de luta e resistência.

Para Uhnepa Nukini, do povo Nukini e coordenador da Rede de Comunicadores Indígenas do Acre, a conferência representa um momento histórico de união entre comunicadores indígenas e extrativistas e uma continuidade de um processo de fortalecimento da comunicação que vem sendo construído há décadas.
Foto: Tetepawa Comunica

Segundo ele, a comunicação dos povos da floresta ganhou força a partir das mobilizações iniciadas ainda na década de 1980 e hoje encontra na juventude uma nova geração preparada para dar continuidade a essa trajetória.

A COMFLORESTA também é compreendida como resultado das formações e investimentos realizados pelas organizações e lideranças ao longo dos anos. O encontro busca demonstrar a capacidade dos próprios comunicadores de organizar, produzir e conduzir processos de comunicação a partir de seus territórios.

“A Comfloresta é uma referência estadual de comunicação dos povos da floresta.”
Foto: Tetepawa Comunica

Comunicação como ferramenta de luta e autonomia

Um dos principais temas presentes na conferência é o protagonismo dos povos indígenas na produção de suas próprias narrativas.

Para Samuel Arara, jovem comunicador indígena, contar a própria história é uma forma de preservar a identidade e desconstruir narrativas historicamente produzidas por pessoas de fora dos territórios.
Foto: Tetepawa Comunica

Samuel Arara é um dos coordenadores do Tetepawa Comunica, Coletivo de Comunicação Indígena do Acre que reúne aproximadamente 36 terras indígenas, mais de 100 aldeias e cerca de 200 comunicadores. O coletivo atua para fortalecer a comunicação das lideranças, das bases do movimento indígena, das organizações e de iniciativas que trabalham em defesa da floresta e dos povos da floresta.

A comunicação produzida pelos próprios indígenas permite registrar e divulgar aspectos da vida cotidiana, dos costumes, da espiritualidade, das festividades, das línguas, dos conhecimentos tradicionais e das formas próprias de organização social.

Essa produção também contribui para preservar a memória dos povos. Fotografias, vídeos, documentários, registros de áudio e outros formatos audiovisuais permitem guardar falas de lideranças, conhecimentos e momentos que poderão ser acessados pelas próximas gerações.

Nesse processo, a comunicação digital passa a dialogar com uma comunicação ancestral, baseada na oralidade, na transmissão de conhecimentos e na relação entre jovens, lideranças e pessoas mais velhas das comunidades.

Conectividade amplia possibilidades, mas traz novos desafios

A expansão da internet nos territórios indígenas trouxe novas possibilidades para comunicação, educação, mobilização e defesa dos direitos. Com acesso à conectividade, comunidades podem produzir conteúdos, realizar denúncias, solicitar apoio em situações emergenciais e ampliar o diálogo com organizações e instituições.

Ao mesmo tempo, a chegada das tecnologias apresenta novos desafios. Samuel Arara chama atenção para o que denomina colonialismo digital, relacionado à dependência das plataformas e à falta de formação adequada para o uso consciente das tecnologias.

Entre os riscos estão a circulação de notícias falsas, a exposição a conteúdos prejudiciais, o uso excessivo das redes sociais, jogos eletrônicos e plataformas de apostas, além de outras formas de dependência digital.

Por isso, a educação midiática aparece como uma das estratégias para preparar as comunidades para utilizar a internet de maneira segura e consciente. A proposta é que esse processo esteja presente também nas escolas indígenas, envolvendo crianças, jovens, lideranças e demais membros das comunidades.

Foto: Tetepawa Comunica

A tecnologia, portanto, é compreendida como uma ferramenta que pode contribuir para a preservação cultural e para o fortalecimento das lutas dos povos, desde que seu uso esteja conectado à identidade e aos conhecimentos tradicionais.

Juventude assume novos espaços na comunicação

A presença da juventude é um dos principais destaques da COMFLORESTA. Jovens comunicadores indígenas e extrativistas participam do encontro para compartilhar experiências, produzir conteúdos e fortalecer seus coletivos.

Para Uhnepa Nukini, essa participação representa a continuidade de uma história construída pelas gerações anteriores. As grandes lideranças que participaram da construção do movimento indígena abriram caminhos que hoje são ocupados por novos comunicadores.

A COMFLORESTA cria, assim, um espaço para que essa nova geração se encontre, reconheça suas experiências e fortaleça sua atuação dentro dos territórios.
Foto: Tetepawa Comunica

Além da produção de conteúdos, os jovens passam a ocupar espaços de diálogo, formação e tomada de decisão, ampliando sua participação na construção das políticas e ações que impactam suas comunidades.

OPIRJ participa da COMFLORESTA

A OPIRJ – Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá participa da COMFLORESTA como organização convidada, representada por Carol Puyanawa, integrante da equipe técnica da organização e atuante na área da comunicação.

Para Carol, participar da conferência é uma oportunidade de representar a OPIRJ, encontrar outros comunicadores e conhecer as experiências desenvolvidas por diferentes territórios e coletivos.

A participação da organização acontece também na Mesa Institucional: “Comunicação dos Povos da Floresta e Políticas Públicas”, que debate temas como fomento, editais, conectividade e atuação institucional.

A presença da OPIRJ contribui para levar ao debate as experiências desenvolvidas no Vale do Juruá e as demandas dos territórios onde a organização atua.

Carol destaca ainda a importância de a juventude indígena ocupar espaços de formação e atuação profissional dentro das próprias organizações. Para ela, a comunicação permite aos jovens conhecer diferentes territórios, ouvir as histórias das lideranças e compreender melhor os processos de luta do movimento indígena.
Foto: Tetepawa Comunica

Formação de novos comunicadores no Vale do Juruá

A participação da OPIRJ também está relacionada ao trabalho que a organização vem desenvolvendo na formação de jovens comunicadores.

A organização já realizou formação em audiovisual e elaboração de projetos, reunindo jovens de diferentes territórios do Vale do Juruá. Durante o processo, foram disponibilizados equipamentos como câmeras, tripés e microfones, permitindo que os participantes continuassem produzindo conteúdos diretamente em suas comunidades.

Atualmente, jovens que participaram dessas formações já atuam como comunicadores em seus territórios e participam de espaços estaduais como a COMFLORESTA.
Foto: Tetepawa Comunica

Esse processo demonstra que investir na comunicação também significa investir na juventude e na formação de novas pessoas capazes de atuar dentro das comunidades, fortalecer suas organizações e contribuir para o movimento indígena.

A comunicação, nesse sentido, ultrapassa a dimensão técnica. Ela contribui para o desenvolvimento da autonomia, para o fortalecimento da identidade e para a preparação de jovens que poderão assumir novos papéis e responsabilidades dentro de seus territórios.

Políticas públicas e financiamento

A realização da COMFLORESTA também evidencia os desafios enfrentados pelos comunicadores indígenas e extrativistas para acessar recursos e apoio institucional.

O projeto envolve um investimento de mais de R$ 70 mil, considerando alimentação, transporte, veículos, estrutura, comunicação digital e profissionais técnicos envolvidos na realização da conferência.

Segundo a organização, uma das principais dificuldades foi encontrar parceiros para apoiar financeiramente a iniciativa e lidar com a ausência de recursos públicos específicos destinados ao fortalecimento da comunicação dos povos da floresta.

O debate sobre financiamento, portanto, está diretamente relacionado à autonomia. Para que os povos possam produzir suas próprias narrativas, é necessário garantir acesso a equipamentos, internet, formação, profissionais e recursos para manter as iniciativas funcionando nos territórios.

Construção de uma comunicação com autonomia

A autonomia da comunicação indígena passa também pela participação dos próprios povos nos espaços de decisão.

A proposta defendida durante a conferência é que indígenas e comunidades tradicionais não sejam apenas convidados para falar sobre seus territórios, mas estejam efetivamente envolvidos na construção e na tomada de decisões relacionadas às políticas públicas.

Isso envolve fortalecer a educação midiática nas escolas, ampliar a formação dos comunicadores e garantir recursos financeiros para que os povos tenham condições de produzir seus próprios conteúdos.

Foto: Tetepawa Comunica

A construção dessa autonomia é entendida como uma responsabilidade compartilhada entre lideranças, organizações indígenas, poder público, instituições parceiras e iniciativa privada.

Ao mesmo tempo, o avanço tecnológico não deve significar o abandono das formas tradicionais de comunicação. A língua, a cultura, a oralidade e os conhecimentos ancestrais continuam sendo elementos fundamentais da identidade dos povos.

Um espaço para construir novos caminhos

A COMFLORESTA começou como uma ideia e foi sendo construída a partir das experiências dos próprios comunicadores e das necessidades identificadas nos territórios. A realização da primeira conferência representa, portanto, o resultado de um processo coletivo e abre possibilidades para novas edições e iniciativas.

Durante o encontro, os participantes também produzem jornais, matérias, fotografias, vídeos e outros conteúdos, ampliando a visibilidade das ações e das pessoas que atuam diretamente na defesa dos territórios.

Para a OPIRJ, participar desse espaço significa fortalecer o diálogo sobre a comunicação no Acre e apresentar experiências construídas no Vale do Juruá, especialmente no trabalho de formação e fortalecimento da juventude indígena.
Foto: Tetepawa Comunica

Mais do que um encontro de comunicadores, a COMFLORESTA representa um espaço de união, formação, articulação e construção coletiva, aproximando povos indígenas, comunidades extrativistas, jovens, organizações e instituições.

A conferência reafirma que comunicar também é lutar, preservar, formar, fortalecer identidades e defender territórios.

E, acima de tudo, reafirma o direito dos povos da floresta de contar suas próprias histórias, construir suas próprias narrativas e ocupar os espaços de decisão sobre a comunicação que fala de seus territórios e de suas vidas.